A livre, e mais simples, expressão da mente e da alma é libertadora quando se propõe, simplesmente, ser profunda e verdadeira
Há que ruir
Deixando meus amores
Caindo em sono profundo
Quero abandonar o mundo
Sei que devo ir
Te beijar e partir
Virar a esquina e sumir
Ir pela noite e dormir
Tenho pensado no tempo
Afogado em lembranças
Chorando ao vento
Sacrificando esperanças
E não mas tento fugir
É minha vida por ti
Novamente vais me parir?
Não, isso tudo há de ruir.
:'-------------------------------------------------------------------------------------------------()_
Escrevo sobre a morte, sobre o escuro. Deito e choro, quase sempre, em verso. Corro pela noite desesperado. Sumo e confesso. Sinto-me revigorado ao declamar sobre tudo que tenha derramado. Há que ruir, pensamentos sobre mim, há que ruir, desejos simples de partir.
Um sétimo e um vigésimo quinto dia em Dezembro
6:00h... Som da campainha.
Antes que o som se encerre já estou iniciando meu ritual de desfecho de mais um longo dia de trabalho, árduo, em que produzo, numa linha de produção com mais 28 operários, peças que compõe caldeiras para fornos de indústria siderúrgicas. Inicio meu turno as 20h, já que pagam um pouco mais, e ainda posso fazer algo durante o dia para poder ganhar um pouco mais. Tenho três filhos, uma menina, linda, e dois garotões, lindos.
6:07h... Marcos liga a motoca e sai dando alguns 'adeus' pelo caminho.
Curioso como trabalho em um local tão quente, uma cidade tão quente, uma linha de produção que chega fácil aos 40 graus e quando saiu em minha motoca sinto um tremor pelo corpo... Sempre olho pelo retrovisor, não sei ao certo porque, mas olho, se não vejo nada, nem ninguém, demoro mais sentir os calafrios indo embora, já se vejo alguém, mesmo que distante, sinto um pouco mais de paz, minhas pernas parecem ficar um pouco mais quietas e dirijo um pouco mais tranqüilo, pois, caso contrário, fico com medo de meu frio causar minha queda.
6:22h... Marcos desliga a motoca em frente ao pequeno prédio onde mora.
Entro com muito cuidado, fazendo muito silêncio, mesmo sabendo que dali a poucos minutos terei que acordá-los, pois precisarão ir para a escola. Diego é sempre o primeiro que acordo, até porque, muitas vezes nem chego a acordá-lo de fato, ele meio que percebe minha aproximação e começa a se mexer, e sempre estende sua mãozinha esquerda, ainda com os olhinhos entreabertos... sempre me emociono nessas horas. Ele tem sete aninhos.
6:43h... Enquanto Diego já está sentando, Marcos vê os outros dois, com caras tristonhas, vindo pelo corredor, abraçados.
Sento, abaixo a cabeça e faço uma pequena oração... Nem todos acompanham. Diego está sempre vivo, é o que serve todos na mesa, às vezes quer mandar, dizendo que já está na hora de irmos. Os outros dois estão sempre calados, acho que é a falta de vontade de falar. A mãe não está.
7:53h... Atrasados, saem correndo de casa, Marcos e Diego, os outros não saem.
Dieguinho me abraça forte, primeiro por causa do frio, segundo porque uma vez ele foi coçar o olho e, com dificuldade para alcançar o rosto por causa do capacete, ele desequilibrou-se e ficou muito assustado. Desde então, quando ligo a moto, ele se agarra muito forte, e quando quer coçar o olho ou nariz, e pelo menos uma vez por saída ele sempre quer, ele me aperta a barriga para eu parar e aí sim, ele solta, uma mão, e coça-se a vontade. Sempre ele ganha sorrisos meigos das pessoas que passam quando paramos, ás vezes tenho a impressão que, quando ele vê uma mulher com crianças, ele pede parar... é, coisas de criança, coisas de Diego.
8:11h... Diego agarra o pescoço do pai, ainda em cima da moto, o beija, dá um pulo e sai da moto.
Quando ele sai, quase sempre depois de se erguer, pois ele sempre põe as mãos no chão pra não cair, ele fala:
"Pai, não vai embora enquanto eu não der tchau, tá!?". Vejo Diego correndo para dentro da escola e sempre tiro o capacete para vê-lo entrando. Depois de entrar, ele sempre coloca meio corpo de volta para fora do portão e dá o seu tchau.
"O Início do texto está no post do dia 27 de Novembro de 2004"
8:49... Marcos chega ao seu outro trabalho, é em uma loja de autopeças, onde é vendedor.
Trabalho aqui 4 horas por dia, seu Lourival é uma pessoa boa, quando atraso, por exemplo, ele sempre entende, mas como dono de comércio só pensa numa coisa: Preciso ganhar o máximo possível. Ele não me paga pouco, mas sei que poderia pagar mais, até mesmo me colocar na vaga que ele colocou seu sobrinho, Renato, que não sabe de nada. Estou aqui a 3 anos e meio, e já faz um bom tempo que passo o dia pensando quanto falta para chegar a hora do almoço.
12:40... Chega na escola de Diego.
Hoje tive vontade de chegar mais cedo e tentar vê-lo lá dentro ainda. Desligo a moto e olho o relógio. Ainda faltam 20 minutos para ele sair. Tiro o capacete e vou entrando. Passando pela portaria, sr. Antônio já me fala: "Olá seu Marcos, dieguinho está na sala, entre!". Vou me aproximando da janela de sua sala e noto o alvoroço e escuto a voz da professora relembrando qual é a tarefa de casa. Sem me aproximar da janela, começo a dirigir meu olhar a procura do meu filho. Avisto-o. Ele está arrumando sua bolsa, e já no final, começa a procurar algo. Ele tira tudo de dentro, e enfia a cabeça na bolsa. Começa a olhar para trás, em baixo da sua mesinha e nada. Vai de encontro a professora. Ele volta e procura mais, até que um colega lhe entrega um lápis. Entendi porque ele fez tudo aquilo, é o lápis que a mão lhe deu, e que ele fala que nunca quer que se acabe, mesmo eu lhe explicando que conforme ele vá usando-o, o lápis vai se desgastando, fazendo sua ponta, um dia ele vai se acabar, mas ele não se conforma, diz que se usar pouquinho não se acaba e que nunca ele vai se separar do lápis.
12:50... Som da campainha.
Já me abaixo ao lado da porta esperando por ele. Quando passa, faço-lhe uma surpresa, dando um abraço e um beijo. Ele diz: "Papai!", e já emenda: "Tia Ana falou pra gente fazer um desenho do que a gente queria ganhar no natal, olha o que eu fiz!". E me estende a mão com o desenho:

Ele me abraça e começa a explicá-lo. "Pai, eu queria que a gente ganhasse um carro desse, bem grande. Ele tem antena, pra gente ficar escutando música, tem uma geladeira também, mas eu não tinha mais espaço para desenhar. Tia Ana gostou muito... ah, e sabe porque ele não tem porta? É pra gente não precisar sair mais.". Dei um forte abraço no meu filho, e me senti o homem mais importante no mundo naquela hora, contive o choro sabe lá Deus como, e retruquei: "Que lindo meu filho!". Tentei falar mais alguma coisa, mas não consegui.
13:14 Chegam em casa. Marcos desliga a moto e entram.
Diego corre e vai ligar a televisão. Vou pra cozinha e pergunto como foi o almoço dele na escola. De vez em quando ele diz que não estava bom e vem comer comigo. Ele diz que estava gostoso, comeu tudo e que não está com fome. Faço algo para comer e vou para a sala. Enquanto como, e ele assiste um desenho animado, pergunto por sua tarefa, ele, como sempre, me diz que tem tarefa, mas que está fácil e que não precisa que eu o ajude não. Assim que termino, aviso para Diego que vou para a cama descansar.
"Diego, qualquer coisa, me acorde, tá? Assim que acabar esse desenho, faça sua taref17:50 O despertador toca.
"Diegooooo"
"Que é pai!?"
"Nada filho, só pra saber onde você estava".
Impressionante como fico a mercê de dois sentimentos tão opostos. Falta e completude. A presença de meu filho Diego, o simples de fato de saber que ele existe, me traz uma sensação de paz tão intensa, que seria capaz de acreditar que existo única e exclusivamente para estar ao seu lado... muito estranho... mas e eu? Ele me tendo sem eu nem saber quem direito eu sou, ou me transformei, será fruto de algo que se perderá antes dele conseguir entender e buscar o que de fato o preencherá... Não importa, é a ele que dedico meus dias e meus pensamentos, e quando, em alguns momentos, ele me sai do pensamento, me vem muita dor e comoção. É a ele que dedico minha esperança na vida, esperança de dias sem lembranças, e quando essa esperança me abandona, vez por outra, como agora, me perco em lágrimas e fotos. Diego brinca na sala.
18:53 Hora da janta
Diego, se vista logo e venha jantar...
"Pai, hoje eu posso rezar falando sozinho? É porque eu quero ver se eu sei a reza toda".
"Abençoai senhor a nós e a esses dons, que de vossa de liberalidade vamos receber, nós vo-lo pedimos, por Jesus Cristo, nosso senhor, amém. Atacar!".
"Isso mesmo meu filho, que lindo, falou tudo sozinho."
A janta é sempre muito divertida, principalmente a hora em que terminamos de rezar e ele fala "atacar!" e avança em cima do sanduíche de queijo que já deixo pronto. Nós desligamos a tv e ficamos só escutando um a conversa do outro. É a hora que Diego mais conversa, principalmente sobre o que aconteceu pela manhã na escola.
20:51 Diego já está na cama, e seu pai conta-lhe histórias.
"Pai, agora canta a música da casa muito engraçada?".
Ele nunca esquece, vez por outra me pede para cantar a música da casa. E lógico que eu não canso de cantar para ele, ainda mais que, no final da música, sempre faço a mesma coisa, e ele sempre dá a maior gargalhada.
"... Rua dos bobos, número zero".
E aperto-lhe a pontinha do nariz e faço um barulho de uma buzina... não tem como, ele adora, solta sempre a sua risadinha leve. Depois disso sempre ele adormece, e aí dou-lhe um leve beijo, cubro-o e saiu. É um momento muito especial para mim, mas, me vem, mais uma vez, pensamentos tão distintos quanto se possa imaginar. Saindo, antes de fechar a porta, o vejo como que sorridente, dormindo em tremenda paz, e ao fechar a porta, a casa está no mais absoluto silêncio. O barulho da geladeira, vez por outra, tenta interromper a quietude do ambiente. Não consegue. Quando não vou trabalhar, como hoje, tento ir para a cama cedo para dormir logo, mas a um bom tempo não consigo. Fico a pensar e às vezes faça a loucura de imaginar como as coisas seriam diferente se não fossemos apenas nós dois.
Domingo - 18 de dezembro de 1977
6:53h A família está toda reunida na cama de Marcos e Hilda
Marcos: "Ô macacada, onde já se viu vocês virem para o nosso quarto essa hora, heim!?"
Bruna: "Mas pai, Diego acordou, acordou eu e acordou Rafa e disse que queria ver mamãe, o que a gente ia fazer? E a gente escutou vocês conversando, vocês já estavam acordados."
Hilda: "Eu conheço bem esta conversa de vocês. Vocês querem é ficar de folia aqui."
Diego: "O que é folia, mamãe?"
Hilda: "Bagunça meu filho, bagunça."
Diego: -"Mamãe, eu tô é com fome."
Rafael: "Mãe, então vai fazer a comida de Diego que a gente te espera aqui com o papai"
Hilda: "Então vamos todos, que eu vou dar um pulo na igreja. Aliás, quem vai comigo hoje?"
Bruna: "Eu vou!"
Rafael: "Eu também mamãe. Na volta a gente passa naquela sorveteria, né?"
Hilda: "Não, depois do almoço seu pai vai nos levar para passear, é o último do circo, nós vamos ver. Quem quer ir?"
Todos: "Eu!"
Marcos: "Então já que está tudo certo, vão se arrumar para ir com sua mãe para a igreja que eu fico com Diego, daqui a pouco nós nos levantamos e eu faço o café de Diego, quando vocês liberarem a cozinha. Espera só um pouquinho aqui comigo, meu filho?"
Diego: "Espero... Pai, o que eles fazem na igreja?"
Marcos: "Rezam meu filho, para papai do céu"
Diego: "Igual àquela reza que mamãe faz quando a gente vai jantar?"
Marcos: "Parecida meu filho. No próximo domingo vamos todos juntos, pra você ver como é."
Diego: "Oba!... Pai, a mamãe vai demorar lá?"
Marcos: "Ué meu filho!? Não, ela vai na missa e volta."
Diego: "Eu queria que ela voltasse logo. Eu quero que ela me ensine a reza da janta, eu só sei uma parte"
Marcos: "Ela não vai demorar, e quando ela voltar, te ensina."
7:48h Hilda e os dois filhos, Rafael e Bruna, saem para a igreja.
Hilda: "Rafa e Bruna, não atravessem agora, esperem aqueles dois carros passarem."
Rafael: "Mas mãe, eles estão muito longe."
Hilda: "Meu filho, eles estão correndo muito, vamos esperar, não custa nada. Meu Deus, eles vão acabar batendo do jeito que eles vem..."
7:56h Marcos está fazendo o café de Diego e escuta um forte barulho de batida de carro.
Marcos: "Ih, mais um acidente na avenida, esse foi feio"
Diego: "Pai, a televisão desligou sozinha!"
Marcos: "Faltou energia meu filho!"
Domingo - 25 de dezembro de 1977
8:00h – Missa de Sétimo dia de Hilda, Bruna e Rafael Carneiro de Souza
Diego: "Pai, eu queria tanto que mamãe tivesse aqui com a gente... eu queria rezar para ela e para papai do céu a reza da janta..."
Em Nov/Dez 2004
Convenhamos
até porque, já os tem.
Convidarei-te para dançar
Porque sei, não esqueces mais do mar
Claro, que como um piano,
Declamas teu pesar,
E como lírios a murchar
Deixa a terra se aproximar
Crio a fantasia de enlouquecer
Solicito ao pensamento
Dias triste de esquecimento
Sem esquecer da dor, meu padecer
E a dança, palavra perdida?
Convenhamos, estou a enlouquecer
Chego pertinho da partida
E vou rumo ao adormecer
Felicidade? Foi embora!
A saudade do meu peito?
Paralisa e me devora
E agora? Sorrio e deito
Convenhamos, estou com sono
Venha. Deitamos e choremos
Arrumamo-nos num sonho
Caídos e horrendos
Convenhamos,
Estou aqui
Não como antes,
Quem me dera,
Mas como um depois,
Que eu já vi.
Vejamo-nos:
Caímos em outro mundo
Ele é tão imundo!
E agora estamos nus
Convenhamos,
Aqui tudo desabou
Parece até que me deras
Lembrança que nunca passou.