Numa tarde chuvosa

Ao tirar do escuro todas as melhores histórias que cultivei, sou surpreendido pela declaração de que um amigo acaba de se matar.
É uma auto-declaração póstuma feita através de lembranças compartilhadas da infância.
Numa tarde chuvosa corríamos como loucos de bicicleta, raios, trovoadas. Magnífico.
Agora sei porque naquele dia ele tinha me dito que as melhores corridas são aquelas que não se sabe nem para onde vai, muito menos o que irá acontecer.
Ele não suportaria ficar tanto tempo repetindo a mesma história para si mesmo, para seus dois filhos.
E uma carta dizia:

Filhos,
Nunca os deixarei, na verdade eu estava os deixando continuando aqui, não estava aguentando tamanha desgraça que insistia em se vestir de cotidiano.
Minha ida, sem volta, irá servi-lhes como um prato de gosto diferente, distante de tudo o que já se provara, um gosto inesquecível que não se desejará mais ser sentido mas que servirá para mostrar-lhe o que a vida pode produzir.
Servirá também para que vocês possam olhar para vocês mesmos como exatamente vocês sonham que sejam. Nada, nada poderá atrapalhar isso, sobretudo o olhar do outro.
Se olhem pouco no espelho, comprem pouco, sobretudo artigos para beleza, roupas, carro e comida, procurem plantar frutas, legumes e os deliciar, de preferência, naturais.
Amem a si mesmos, mais do que a qualquer outra pessoa, mas também, tenham como obsessão amar o próximo como a si mesmos.

Tentem olhar o erro do outro como se de vocês pudesse ser e ajam como se tentassem achar formas para corrigir o erro, não para punir quem os tenha feito.
Amem-se, um ao outro, e isso não precisará gerar dependência emocional entre vocês. Leiam sobre isso. Leia bastante, sobre tudo aquilo que interessar vocês.
Não dependam do outro nem de outra coisa, que seja, para se sentirem felizes, mas tentem, também obsessivamente, compartilhar momentos felizes e não tenham a menor vergonha de pedir um ombro a uma pessoa que tenham carinho, seja ela quem for, seja em que momento for.
Adeus.

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