O velho sofá com detalhes em camurça azul, tom sobre tom

Destino sujo esse do meu vil querer
        ser aquele restinho de sonho infantil.

Assemelho-o, assim, ao compromisso do espelho
        em refletir o velho desespero.

Rotina então que se esguia
        pelas finas guias da tua retina.

Minha esperança na volta é como um sinal de nascença, que nunca desaparecerá. Alia-se o mais profundo sentimento de cheiro de fumaça que remete, a todos nós, a um lugar escuro, mas feliz. Sujo, mas em verniz.

Distante e hostil. Relutante e vazio, parto. Descubro em teu seio o prazer de sonhar, no teu maior medo, meus pesadelos. Choro, mas não caio e tenho naquele pequeno retrato do céu de onde viera, a mais nítida sensação, como aquela da dor pelo corte da garrafa de vinho da nossa despedida e que feriu meus punhos e aumentou meus impulsos, de que o fim já passou e estamos apenas assistindo televisão, sintonizados no canal da ilusão, compartilhando ainda o mesmo velho sofá com detalhes em camurça azul, tom sobre tom, que guarda, dia após dia, toda a poeira que levanta dos nossos pés descalços, das nossas falsas fé.

Nosso mundo acabou, assim como o meu próprio espaço, o que eu ocupava dentro de mim mesmo, que se foi. Isso, a primeira vista, parece triste a você, mas na verdade é motivo de alegria, pois toda a sensação de vazio, na nossa imensidão sem fim, agora se transforma num passado acessível, como a um batismo fotografado e guardado num álbum enfeitado com um laço de ternura, impura, e que promete nossa cura.

Sim, agora chegou a hora de retornarmos àquela sensação que servia de fuga para nossas explosivas descobertas de que nossas vidas serviam de combustível uma para a outra e que nos permitiu, por décadas, fazer da realidade nossa mais intensa fantasia.

Sim, agora tudo acabou. O vento sopra contra tudo aquilo que falamos e a tempestade deixou de cair lá fora pra destruir tudo aqui dentro. “Nem tudo que cai do céu é sagrado”, e o meu destino que parecia dádiva agora é mundano, sujo. Efêmero, como o nascimento e a morte o são nessa escala de sonho eterno em que propomos nos amar.

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