Pelo fim

E eis que o dia raiou, as nuvens continuavam escuras, como na noite inteira estiveram, e acordaram surpresas por estarem ali. Eram uma só, como uma simbiose que, ao mesmo tempo em que consome a energia de ambas, prolifera a mais intensa sensação de prazer em tocarem-se. O perfume derramado sobre a saia revelou a orgia que foi aquele encontro tão inesperado quanto grandioso.

Ela disse para sua inseparável esperança que gostaria sim de vê-la, mas que precisaria de tempo para aprontar-se e acabou surpreendida pelo estrondo de um grito em desespero profundo, um pedido de ajuda tão claro como se seu fora. E as dúvidas se amontoavam como a lama que se junta ao largo da estreita estrada que as leva, uma vez ao ano, para a fortaleza que criaram no alto daquela montanha. E os dias se foram, nada acontecia, a não ser a pequena sensação de incômodo que sentia a jovem loira na espera das notícias que pudessem mudar o rumo de tudo novamente, pois as coisas que tendiam a piorar, sumiram, e nada mais causava o antigo êxtase em saborear as lembranças marcantes que lhe alimentava os sonhos. E apenas o amanhecer as separava, era como se tudo aquilo nunca tivesse começado... nunca fosse acabar. Ao tentar chamá-la para contar-lhe a história da sua vida, ela escutava a si mesma e tinha a sensação que tudo era um sonho, onde ela sonhava e, no sonho, ela se via como aquela que estava ao seu lado, seu pensamento era fonte da vida da sua alma gêmea e a vida desta alimentava seus sonhos.

As sonoras vozes diziam a todo momento que o mais racional a ser feito era simplesmente gritar impulsivamente, como se chorasse num desespero infindável. A saudade era tanta que a menor sombra de um pensamento causava-lhe uma sensação de irritação na vista que a obrigava a lutar contra a luz, como se nunca tivesse tido contato algum com o teor pragmático do sol e com as sensações de queimar da pele quando se toca em alguém, que se amou a vida toda, pela primeira vez.

Elas nunca tinham tido a menor idéia de que o nome da outra era aquele. O sorriso, no entanto, era tão familiar que uma delas chegou a confundi-lo com o do seu pai. Aquilo tudo era muito estranho. Algumas rosas, que estavam no parapeito do sobrado na esquina logo a frente delas, pareciam que se dividiam: Parte secava. Outra parte ganhava viço.

As ruas se cruzavam insistentemente, os veículos passavam lentamente e a sensação de vazio preenchia, cuidadosamente, todas as perguntas que crucificavam, dia após dia, a alma de duas feiticeiras modernas fantasiadas de cotidiano e medo. Nanda Raz e Key Hild, pediram, ao mesmo tempo, que a solidão que as acompanhava se transformasse em música que deveria embalar o sono de cada uma até que a vida ganhasse o sentido que permitisse-as sorrir para o mundo, sem mais culpa alguma.

"Morte ou felizes para sempre. Chega de começar pelo começo, porque, afinal, o final todos já sabem. Eu quero mesmo delinear as coisas não como elas se sucederam, mas como elas poderiam deixar de acontecer, afinal, se eu, de saída, sei a entrada, pra que entrar?"

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